segunda-feira, 3 de julho de 2017

Pedro e a Francesinha*


Pedro de Aguiar chegara à cidade e a primeira notícia que recebera foi a respeito do bilhete de Sofia; ele passara alguns dias na estância, em razão do excesso de trabalho que lá havia. Leu-o, largou-o e, de imediato, saiu, a pé, na direção do Hotel do Branco. A antiga Rua General Osório nunca lhe parecera tão longa: Pedro morava próximo ao Velho Sobrado, a duas quadras do Arroio e a duas quadras da Matriz. Chegando ao hotel, o rapaz silenciou ao ser informado de que Sofia deixara o estabelecimento há pouco mais de uma hora. Ele saiu à porta e, vagarosamente, caminhou na direção de casa. Pedro era um homem de uma família de boas condições, porém um sujeito muito simples em seu modo de ser. Seu cabelo era escuro e bem curto, ombros largos e pele um pouco queimada do sol, olhos escuros, porém dotados de certa ingenuidade, às vezes deixava crescer a barba, falava pouco e, muito raramente, sorria: ele era muito sério. Recentemente, havia machucado o pé direito, o que fazia com que caminhasse um pouco mais devagar e ligeiramente entortasse o pé ao pisar no chão. Ia Pedro pela rua quando se deparou com Seu Alvim Caminhão, que há pouco praguejara para uns rapazes que passaram curtindo-o a buzinadas. Seu Alvim fitou-o: “Pedro, como estás, meu rapaz! Fazia dias que não te via!” “De fato, Seu Alvim, estava para fora, muito serviço na estância.” “Vejo que estás com semblante entristecido. Que houve?” “Soube tardiamente que uma moça por quem tenho apreço esteve na cidade à minha procura. Agora, ela se foi para longe e nunca mais a verei.” “A moça de que falas é Sofia, a francesinha? Ela partiu não faz muito tempo, ajudei-a com as malas. Se fores rápido, consegues alcançá-la antes de embarcar no trem”. “É ela mesma, Seu Alvim, mas acho que não há mais tempo, penso que a perdi.” “Meu jovem, jamais desistas daquilo que mais queres e que te faz feliz. Se existe uma oportunidade de vocês ficarem juntos, abraça-a com toda a tua vontade. Corre atrás dela! Agora!” E assim Pedro o fez: chegou à casa, montou em seu cavalo e partiu, afoito, rumo à Ayrosa Galvão. 


O bar da Estação Ayrosa situava-se à direita de quem desce do trem: era uma peça pequena, com uma mesinha de madeira e duas cadeiras, além de um balcão com dois bancos mais à frente, todos na cor mogno. Sofia estava sentada em um dos bancos junto ao balcão e havia pedido um café ao atendente, enquanto aguardava a chegada do trem. Havia sempre um leve cheiro de café no ambiente, que se acentuava em especial naquela hora, que era a de seu fazimento. O moço trouxe um copo de café a Sofia – naquela época, na estação, o café era servido em copos de vidro incolor, trabalhados apenas nas bordas –, que gentilmente o agradeceu. Ela sorveu, angustiada, um gole do café; não queria partir e deixar Pedro para trás. A decisão tomada partia-lhe o peito, mas seguia firme: era preciso. Eis que de longe se escutava o apito do trem quando Sofia avistou um homem a cavalo vindo pela estrada. À medida em que se aproximava, maior sua certeza de que era Pedro o homem montado ao cavalo. Ele chegou à Estação e foi na direção de Sofia que, surpresa, ficou sem reação. Os dois se miraram e os olhares trocados disseram mais que as palavras. Um beijo selou o compromisso que, a partir de então, seria eterno. Pedro pegou as malas de Sofia, amarrou-as junto à cela de seu cavalo, os dois montaram e partiram, rumo ao Arroio Grande – e à felicidade... 

*Uma Ficção de Elizandro Rodrigues. Crônica publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 30.06.2017. Origem das imagens: Internet.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A Francesinha*


O trem, vindo de Jaguarão, parou exatamente às três horas na Estação da Airoza Galvão. Um número pequeno de passageiros descera naquela tarde ensolarada, dentre eles, Sofia. O carregador ajudou-a com sua bagagem em direção ao primeiro charreteiro que ela encontrou e que a conduziu pelo longo caminho que ainda havia até chegar ao Arroio Grande. Ela subiu à charrete e, com a ajuda do carregador da estação, o charreteiro colocou as malas na traseira do veículo. Os dois, então, partiram em direção à cidade. Sofia era uma moça de aproximadamente vinte anos, estatura média, corpo magro, esguio e cabelos castanhos, longos, porém ocultados em parte pelo chapéu de aba larga que usava. Sua beleza despretensiosa lembrava telas a óleo do Século XIX. Era filha de Charlotte Charnoy, francesa, dona de uma Casa de Saliências em Jaguarão, na Beira-Rio, onde ali se estabeleceu em razão do advento da construção da Ponte Internacional. Apesar da vida que levava e da fama rotulada em sua testa, Mme. Charnoy sempre manteve Sofia afastada de todo esse contexto: não queria para a filha a mesma sorte que teve. Criou-a em uma pensão de moças e empregava generosas quantias em prol da educação formal da filha. Eis que, quando estava a terminar seus estudos no Colégio das Freiras, começou a passear na praça aos domingos com suas amigas, quando quis o destino que ela conhecesse Pedro de Aguiar, um jovem arroio-grandense que estava prestando serviço militar no Batalhão de Infantaria. Foi amor à primeira vista. Palavras foram trocadas. Juras foram ofertadas. Promessas foram firmadas. O colégio encerrou suas aulas e o batalhão, por sua vez, realizou o encerramento de suas atividades naquele ano. Ele retornou para Arroio Grande e ela, aflita, encontrava-se no dilema de ficar no Brasil e ir ao encontro dele ou retornar com sua mãe para a França. A construção da ponte há muito havia sido concluída. Eis que lá estava Sofia, sentada à charrete, há poucos minutos do Arroio Grande, embalando seus pensamentos ao ritmo do movimento da charrete: pensava em todos os acontecimentos. Iria ao encontro de Pedro, na esperança de com ele ficar. Ao chegar à cidade, a charrete parou à Praça Central, quando Sofia desceu e um homem que vinha passando, o Seu Alvim Caminhão, ofereceu-lhe ajuda com a bagagem, a qual prontamente aceitou. Ela se hospedaria no Hotel do Branco. No caminho, contou-lhe parte dos acontecimentos e dos motivos que a levaram a vir para Arroio Grande. À porta do Hotel, Sofia agradeceu a gentileza do Seu Alvim em ajudá-la e adentrou o estabelecimento. O Quarto 16 do Hotel se situava na esquina do prédio; a vista era ampla. Ali, Sofia aguardaria a chegada de Pedro, que prometeu vir a seu encontro. O cômodo era de uma simplicidade com certo incremento: à entrada, atrás da porta, havia um aparador de chapéus em bronze. Em frente à cama, estendida com lençóis brancos e colcha azul-turquesa, havia um pequeno móvel de tronco de cerejeira, com duas portas e uma gaveta, sobre o qual repousava um jarro e uma bacia, ambos brancos e de porcelana austríaca. À parede, atrás da porcelana, um espelho ovalado com acabamento cromado refletia a beleza cansada e angustiada de Sofia. A moça sentou-se à cama e olhou pela janela. Nenhum sinal de Pedro. Será que ele viria? Independentemente disso, já vinha com decisão tomada: aguardaria Pedro por dois dias, nada mais. Mandou-lhe bilhete por um dos guris que circundavam o hotel, sem haver resposta: o silêncio de Pedro criara uma barreira intransponível. Sofia entendeu, então, o recado: por mais que ambos se gostassem, um relacionamento entre eles seria impossível; o passado da mãe de Sofia sempre se faria presente em suas vidas. Ao segundo dia, Sofia se levantou, vestiu-se, pôs seu chapéu, acertou a conta na recepção e partiu rumo à estação novamente, na qual seu destino seria outro: Iria para Pelotas e, de lá, partiria de navio à capital e, após, à França, onde sua mãe a esperaria...

*Uma ficção de Elizandro Rodrigues. Crônica publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 09.06.2017. Origem das imagens: Grupo Defensores (Facebook) / Pinterest.com.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Um Piano, Um Romance*



Todas as tardes de verão eram propícias para Marcos. O jovem estudante de ciências humanas vinha passar suas férias no Arroio Grande, na casa de seus pais, aproveitando para rever seus amigos de infância e praticar um de seus passatempos favoritos: tocar piano. Todos os dias, perto das três da tarde, Marcos se dirigia de sua casa, próxima onde atualmente é a Torre do Ganso, famosa pela “Voz dos Pampas”, na direção do Clube Instrucção e Recreio. Para a sua sorte e felicidade, fizera pouco tempo que o Coronel Antônio Maria Batista Maciel, juntamente com sua senhora, Dona Florisbela Silveira Maciel, haviam doado para aquele clube o piano existente na sede da Estância Santa Teresinha, a “Charqueada dos Aguiar”, juntamente com um conjunto de espelhos daquela propriedade.


Marcos passava uma boa fração das tardes no salão do clube, próximo ao correr de janelas com vista para a rua principal e à praça central, onde se localizava o piano. O jovem deslizava seus dedos pelas teclas daquele instrumento, tocando as mais diversas melodias, desde polcas até os clássicos, assim como os gêneros mais ouvidos naquela época. As pessoas que passavam na rua naquele período da tarde admiravam a sonoridade extremamente aprazível e extasiante que provinha do salão do clube. A música preenchia todos os espaços e fazia com que se formasse uma aura mítica e surreal pelas dependências do antigo prédio. Os funcionários da diretoria, assim como os demais integrantes do quadro de pessoal, por vezes paravam suas atividades para prestigiar aqueles momentos de talento e inspiração do jovem, em especial, uma das funcionárias: Celina...


Celina era uma jovem de média estatura, cabelos castanho-escuros e pele moreno-clara; possuía olhos escuros, cor de jabuticaba, e um semblante leve. Fazia cerca de um ano que trabalhava no clube, na função de faxineira do salão. Sua rotina era bastante monótona, da casa para o trabalho, do trabalho para a casa; porém, apesar da monotonia, nunca deixava de sonhar e idealizar felicidades vindouras. Seus dias ganhavam cor e beleza no simples fato de ouvir as canções tocadas ao piano por Marcos naquelas tardes de verão... Certo dia, o jovem tocara “Noturno”, de Chopin; Celina ouvira atentamente, e, à noite, em casa, olhava a lua cheia da janela da sala e recordava a música, como que se estivesse sendo tocada novamente. Marcos notara seu ouvido atento às músicas que ele tocava e, na tarde seguinte, antes de sentar-se ao piano para mais uma tarde de música, foi à procura de Celina pelas dependências do Clube...


Marcos procurou por Celina por todas as dependências do Clube Instrucção e Recreio, porém não a encontrou. Celina havia ido ao Armazém do Chico Góz, com a finalidade de buscar os produtos necessários para encerar o assoalho do salão. O moço, por sua vez, dirigiu-se ao piano, sentou-se e começou a pensar nas músicas e na bela jovem. Em sua mente, começou a esboçar a trilha sonora que tocaria ao piano naquela tarde.
Marcos era de um talento pouco conhecido por estas terras outrora neutrais: sabia tocar ao piano boa parte dos clássicos, sem necessitar fazer uso de partitura; o jovem, àquela idade, já era conhecido por ser uma enciclopédia musical. Em via contrária, Celina sempre foi grande admiradora de música; quando adolescente, foi corista no coral das missas de domingo da Matriz, na época em que estava fazendo a primeira eucaristia. Era reconhecida pelo seu tom suave ao cantar as músicas ensaiadas junto às freiras. Quis o destino que aqueles dois, ambos jovens, de diferentes origens, porém com o mesmo amor pela música, se encontrassem naquele clube.


Marcos havia acordado estranho naquele dia: ao mesmo tempo em que estava um pouco eufórico, carregava consigo uma certa angústia, uma melancolia. Por isso decidiu que iria começar aquela tarde com Bach e, logo após, tocaria uma composição de Schubert. E assim foi: Quando Celina retornava do armazém, começou a escutar, à medida que se aproximava do clube, a sonoridade agradável e hipnotizante que vinha em sua direção. Marcos tocava o Prelúdio nº 1 de Bach; seus dedos hábeis e suaves quase que deslizavam pelas teclas do piano. Por estas terras, ainda não existia pianista que a ele se igualasse. Celina adentrou o prédio quase que carregada pelas notas daquele prelúdio; foi na direção do almoxarifado, a fim de deixar os produtos que ora havia comprado no armazém e se dirigiu, depois, ao salão.

Quando lá chegava, Marcos havia começado a tocar a introdução da Ave Maria de Schubert; Celina, naquele instante, havia alcançado sua glória: era sua canção preferida, desde a época em que foi corista na Matriz. Eis que ela começou a cantar, suavemente, acompanhando o piano de Marcos. Ambos entraram em harmonia sonora, física e espiritual: cantavam e tocavam olhando-se nos olhos. Após a canção, Marcos e Celina se aproximaram e ficaram amigos, de amigos passaram a namorados e de namorados a noivos: a música os uniu.


Apesar da resistência de ambas as famílias, Celina e Marcos decidiram que iriam se casar. Já era outono quando a cerimônia de casamento aconteceu: as folhas das árvores da Praça Central repousavam por sobre o chão do adro da Matriz, formando um esparso tapete pelo caminho. A cerimônia foi simples; mesmo assim, a Ave Maria foi cantada quando Celina atravessou a nave para chegar ao altar e aos braços de Marcos. Com um beijo à testa da moça, o enlace matrimonial havia sido selado. E o jovem casal partiu, feliz, rumo à lua de mel.


De Marcos e Celina, pouco se soube depois de terem se casado; ambos se foram de muda do Arroio Grande para a capital, onde o jovem terminara seus estudos. Lá, continuaram a escrever suas páginas no livro da vida, acompanhados de muita música. O prédio do clube, anos após, passou por ampla reforma, que lhe tirou o estilo neoclássico e lhe atribuiu formas e contornos mais modernos; ainda assim, o piano lá continuou, tal qual um senhor idoso que insiste em querer vencer o tempo; porém, aquele velho instrumento ainda se encontra capaz de manter, em suas teclas e entranhas, a memória daqueles áureos dias em que Marcos tocara e encantara a todos, em especial Celina, nas agora distantes tardes de verão...




*Uma ficção de Elizandro Rodrigues. Crônica publicada em duas partes no Jornal Correio do Sul de Arroio Grande, em 16.03.2017 e 30.03.2017. 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Amadeo, o Aquarelista da Villa*

Quadro "Villa do Arroio Grande" (1883), de Amadeo de R., entronizado na
Salada Presidência da Câmara Municipal através da Portaria nº 04/98, de 25.11.1998.
       Fazia poucos dias que José Alberto Baptista retornara da capital; havia ido buscar seu filho, José Alfredo, que tinha recebido alta da Santa Casa, após longa estadia naquele local. Lembrava com tristeza do dia em que seu primogênito adentrara, tísico, naquela irmandade; recordava, ainda, da promessa que fizera à padroeira da Villa, ali, ajoelhado, na primeira fileira de bancos ao pé do altar da Matriz: prometera que, se José Alfredo tivesse rápida recuperação, traria um artista para desenhar um retrato panorâmico daquele povoado, dando destaque para o paço da igreja, o qual presentearia à Câmara Municipal, na qual era vereador. Assim que recebeu a notícia de que seu filho estava recuperado, foi à capital buscá-lo, oportunidade na qual aproveitou para dar cumprimento à promessa: saiu pelas ruas de Porto Alegre à procura de um artista que se propusesse a fazer, em tempo hábil, o retrato prometido. Nas idas e vindas de José Alberto, eis que encontrara, ao acaso, um homem alto, esguio, cabelos lisos e bigode fino, com o qual estabeleceu conversação, momento em que descobriu sua vocação para com as artes da pintura e do desenho. Seu nome era Amadeo, um jovem de origem italiana que veio em expedição às terras brasileiras e que aqui acabou por ficar, tamanho o seu encantamento pelas terras situadas abaixo da linha equatorial. Alberto fez o convite a Amadeo, o qual prontamente aceitou. Os três – Alberto, Alfredo e Amadeo – vieram em partida à Villa do Arroio Grande. Após estarem instalados na casa de Baptista, o anfitrião e Amadeo saíram a cavalo pelas redondezas, a fim de que o artista se familiarizasse com o local. Começaram pelo paço e partiram, após, pela beira do arroio. Seu encantamento era supremo; jamais havia visto um lugar tão belo e tão simples ao mesmo tempo. Subiram a coxilha do fogo e lá, do norte, o artista pôde obter uma visão do panorama que seu anfitrião gostaria de ter retratado em uma pintura; já tinha em mente, neste momento, o que Alberto almejara ao procurá-lo. Eis que Amadeo deu início à fazedura de sua obra artística: primeiramente, desenhou o paço da Villa; foram dois dias de observação ao contorno arquitetônico dos prédios. O traçado a lápis do italiano era de uma precisão pouco conhecida por estas bandas e reproduzia, com perfeição, cada detalhe das fachadas. Após, foi a vez de retratar o povoado a partir da vista para além da coxilha do fogo; foram sete dias de árduo desafio à perfeição a qual Amadeo se entregou. Dado por pronto o desenho e a pintura da Villa e do paço, o artista passou à fase dos acabamentos: retratou os gaúchos em seus cavalos, personalidades com quem muito se deparou em suas andanças por estas terras, bem como inseriu os escritos que Alberto havia lhe solicitado. A obra, enfim, estava pronta. Era chegado o dia da entrega da aquarela à Câmara Municipal. Para a ocasião, a Casa realizou uma pequena solenidade, por ordem de seu Presidente. Nela, estiveram presentes Baptista e os demais Vereadores, assim como as demais representações administrativas da Villa, além, é claro, do autor do quadro. A obra foi, então, apresentada a todos, que, diante de tamanha precisão para os padrões da época, ficaram sem palavras para descrever a beleza dos traços do artista. Terminada a solenidade, Amadeo estava com tudo aprontado para sua partida. Despediu-se de todos, em especial de Alberto, o qual não sabia como manifestar agradecimento e partiu, para nunca mais voltar. Com a Villa, ficou o quadro, para a posteridade e – quiçá – eternidade. Com Alberto, ficou a estranheza do pedido de Amadeo: de que seu sobrenome jamais fosse revelado. E assim ele o fez...


*Uma ficção de Elizandro Rodrigues. Crônica publicada originalmente no Jornal Correio do Sul, Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande, em 23.02.2017.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Viração*


Por Elizandro Rodrigues

A tarde se iniciara com um mormaço típico do verão. Era um dia veranil desses de início de ano, os mais intensos; os habitantes da Villa do Arroio Grande já haviam sofrido bastante com o calor que fizera na virada do ano. Não tardaria muito para este cenário ser alterado. Percebendo uma diferença repentina no tom azul do céu, a velha senhora fitou a observá-lo da janela de casa, que se localizava defronte à praça. Quando notou um caminhar celeste de nuvens fora de seu compasso normal, foi ao pátio, pegou um machado de cabo curto e saiu, rua afora, pela Principal, em direção ao arroio. Quando chegou ao pastiçal que antecedia às águas, já observava nuvens escuras ao horizonte; a brisa se transformava aos poucos em vento. Empunhada do machado, murmurou algumas palavras e lançou-o, cravando-o na terra; virou-se de costas e veio na direção de sua casa, sem mais olhar para trás. Chegou e foi para a janela novamente, a fim de observar os movimentos celestes. 


Na vila, todos ficaram assustados com a mudança brusca no tempo: assim que o vento começou, a temperatura caiu repentinamente. O Sr. Maciel, assustado, saiu à porta de seu estabelecimento e foi em direção à esquina, quando, olhando na direção do arroio, se deparou com um paredão escuro e assombroso de nuvens que se formara no horizonte. Um conhecido seu passava na rua e lhe comentou da viração, para o qual respondeu: “Fiquei impressionado com a mudança abrupta de tempo, meu caro; tanto que já dispensei os serviçais e estou fechando a Pharmacia por hoje”. Com um aceno ao conhecido, recolheu-se, ação esta por todos realizada. Às duas e meia da tarde, não havia uma alma sequer pelas ruas da vila; o único som que se ouvia era dos relâmpagos acompanhados do uivar do vento. 


E o dia virara noite: por volta das três horas começara o temporal; a chuva caía do céu com tamanha força e velocidade, como que se houvesse algo acima dela a pressioná-la; a cântaros, as ruas de terra do povoado eram varridas pela enxurrada. O vento, por sua vez, possuía a bravura de um exército em plena guerra: lançava-se com a chuva por sobre os vidros das janelas do casario e rebolqueava, num anseio satânico, a copa das árvores da praça. A torrente era tanta que pouco se enxergava para a rua; foram momentos de bastante aflição. Eis um espetáculo sinistro que a natureza proporcionou naquele dia. E a velha senhora continuava na janela, murmurando, a observar a tempestade. Quando a chuva cessou, as autoridades da vila saíram a recorrer as casas, com a finalidade de fazer um levantamento de possíveis avarias. Para a surpresa daqueles homens, uma telha sequer foi mexida com o vento, tampouco sequer uma palha de santa fé foi arrancada de algum rancho pela ventania. O temporal passou pela vila e não deixou estragos. Ao final da tarde, o céu já havia clareado, possibilitando que despontasse no horizonte um belo pôr-do-sol, acompanhado de brancas e finas nuvens, as quais mais se assemelhavam à seda de um enxoval de uma jovem prestes a casar. A velha senhora, a passos lentos, se dirigiu na direção do arroio, a fim de buscar o machado; enquanto caminhava, murmurava. Em seus olhos, chorosos de felicidade, estava retratado o significado do murmúrio: agradecimento. Sua missão, afinal, havia sido cumprida...

*Crônica publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 19.01.2017.

Navegantes*


Por Elizandro Rodrigues

Após o almoço, Miguel se retirou da mesa, subiu as escadas e foi para a biblioteca, a fim de descansar acompanhado de uma boa leitura. Era Dia de Nossa Senhora dos Navegantes e ele estava de férias no Arroio Grande, no sobrado de sua família, em razão do recesso da Faculdade de Direito na capital. O início da tarde, naquele dia, apresentava um precoce frescor de outono, demonstrando que o verão, contrariando as previsões, despedir-se-ia mais cedo. Apesar disso, o sol brilhava, acompanhado de um azul celeste bastante acentuado. Uma nuvem sequer havia para que fizesse sombra sobre estas terras de paz. Aliás, muito raramente costuma chover nesta região na ocorrência desta data. Sentado à beira da janela, o jovem apreciava a leitura de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões; naquele momento, estava a ler o 4º Canto da obra do escritor português, no momento em que ele descreve os preparativos para a partida de Vasco da Gama desde a Praia de Belém e o choro e lamento daqueles que ficavam e assistiam a partida das naus rumo ao mar impiedoso. Atônito, Miguel buscou o marca-páginas na mesa de apoio, fechou o livro e viajou em seus pensamentos. Olhando pela janela, começou a associar os acontecimentos narrados por Camões com a conhecida religiosidade dos portugueses, trazida para estas terras com os colonizadores. Apesar de ser conhecedor da devoção das pessoas à protetora dos que se aventuram nas águas, veio à sua mente uma comoção repentina. Interrompido de seus pensamentos, ouviu uma movimentação vinda da rua. Era aproximadamente três horas da tarde quando o jovem descia as escadas, ao mesmo tempo em que vestia o paletó, indo na direção do portal do sobrado. Parado nos degraus de mármore da entrada do prédio, observou o aglomerado de pessoas que vinham pela rua caminhando em direção à Matriz: era a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Aqueles que vinham na frente carregavam a estátua de Nossa Senhora envolta em um manto azul-marinho, posta dentro da miniatura de um barco de madeira. Quatro eram os fiéis que a carregavam. Os demais integrantes da procissão vinham atrás daqueles primeiros, carregando consigo uma vela acesa em uma das mãos e o terço enrolado ao pulso, enquanto que na outra mão traziam ramos de flores. Em coro, cantavam em tom de voz médio liturgias alusivas à data que ora se comemorava. Um sentimento diferente tomou conta de Miguel, que, ao ver se aproximar a procissão – a qual passou em frente à sua casa, uma vez que esta se localizava na rua que se dirigia à Matriz –, juntou-se aos demais fiéis e os seguiu no cortejo à padroeira dos que navegam. Da Matriz, acompanhados do padre – que naquele momento a eles havia se juntado – os fiéis se dirigiram à ponte e, consequentemente, ao arroio. À beira das águas, o padre proferiu um sermão seguido de orações, aos quais os fiéis ouviam atentamente. Foi então o momento em que se repousou a pequena embarcação com a estátua de Nossa Senhora nas águas: os quatro fiéis dela ficaram próximos, uma vez que a protetora retornaria em procissão à igreja. Enquanto isso, os demais faziam seus pedidos e suas orações às margens do arroio, largando os ramos de flores em seu leito, como que em agradecimento à proteção ora concedida pela padroeira das águas. O jovem assistia a tudo muito emocionado, posto que nunca havia participado de uma procissão em homenagem à Nossa Senhora dos Navegantes. Após, o cortejo retornou em direção à igreja, onde ocorreu a dispersão dos fiéis, momento em que retornaram às suas casas. Miguel, a passos vagarosos, caminhava em direção ao sobrado. Em sua mente, os acontecimentos eram rememorados como que se lhe passasse uma fita de cinema. Chegando no prédio, adentrou, caminhou pelo largo corredor e foi em direção aos fundos, à cozinha; solicitou à criada que lhe preparasse um café e o levasse à biblioteca, onde estaria. Lá, à beira da janela, onde o sol apresentava os primeiros raios sinalizando o fim do dia, o jovem seguiu a leitura dos Lusíadas, acompanhada de suas recordações daquela tarde distinta em sua vida...

*Ficção publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 03.02.2017.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

As Camélias da Chácara*


Lembro-me como hoje: ia de mãos dadas com minha mãe, rumo ao cemitério – era dia de finados. A tarde estava bela, ensolarada, clima aprazível, apresentando os primeiros sinais do verão. Havíamos atravessado a cidade e nos encontrávamos no trajeto final que nos conduzia a uma visita à morada dos entes que daqui se foram. Era de costume naquela época comprarmos flores numa propriedade próxima àquele local: uma chácara cujo jardim, assim que nele se chegava, o mundo se transformava: a conhecida Chácara do Aquilino.
Beirávamos o aramado da propriedade, quando minha mãe me alertou de nossa parada na sede, em cujo local compraríamos flores. Mamãe desde então me avisava para que em silêncio ficasse assim que chegássemos no local, chamando-me a atenção, também, para que de seu lado não saísse enquanto ali estivéssemos.
Algo impossível de ser cumprido: assim que chegamos à sede e caminhávamos à beira do muro, a fim de adquirir as flores, não conseguia desviar os olhos de tamanha beleza. Por entre as grades, avistava aquela explosão de cores que vinha do jardim, contrastada com o verde das folhas recém-nascidas da primavera e o morno sol que banhava aquela tarde. Dentre as cores, as camélias...
Ah, as camélias... Mamãe havia batido à porta, eu ao seu lado – ainda em transe com toda aquela beleza que se apresentava aos meus olhos – quando uma senhora, já de meia idade, vestida em uma camisa branca e uma saia comprida, na cor azul marinho, sobreposta de um avental, atendeu a porta. Naquele instante, ela e mamãe conversavam e acertavam a compra, enquanto meu olhar e minhas pernas conduziam-me na direção do chafariz, ao centro do jardim. Ali chegando, a sensação era de como se eu estivesse em um mundo à parte: era como se fosse outro tempo, outro momento. 


A profusão de camélias naquele jardim encantava e hipnotizava os olhos de quem quer que ali chegasse, tamanha a gama de cores que delas emanava. As brancas balançavam-se em meio à brisa que soprava do sul, enquanto que as vermelhas, mais abrigadas ao centro do jardim, brilhavam e reluziam com o banho de sol que ora recebiam. As matizadas tinham seu abrigo próximo à casa, e seus tons contrastavam com os contornos da arquitetura da fachada do prédio.
Como que de pronto, mamãe me chamou, já havia comprado alguns ramos de camélias e estava a me aguardar, a fim de seguirmos nosso rumo em direção ao cemitério. No caminho, rememorava aquele belo instante de há pouco, lembrando, também, das histórias que havia lido. Sentia-me tal qual Alice, no momento que retornou do País das Maravilhas.
Hoje, quando passo por ali, tenho o mesmo sentimento que nomeia a avenida cujo trajeto hoje faço e outrora fazia: saudade. Saudade daqueles que se foram, saudades dos belos momentos vividos; saudades daquele jardim, saudades do tempo que não volta mais. Mas algo é certo: permanece vívida, em minha memória, a lembrança. Lembrança das cores, do perfume, da atmosfera mágica daquele local; a lembrança... das camélias da chácara.

*Uma ficção de Elizandro Rodrigues de Rodrigues. Publicada originalmente no Jornal Correio do Sul de Arroio Grande, em 30 de junho de 2016.