terça-feira, 26 de junho de 2012

Inês de Castro sob o Olhar de Garcia de Resende



Por Elizandro Rodrigues de Rodrigues

Na época do Humanismo, marcada por uma profunda renovação da cultura portuguesa no que se refere à poesia, é, indubitavelmente, Garcia de Resende o seu maior destaque. Nota-se, a partir desse poeta, que começa a se processar uma tentativa de desligamento do formalismo trovadoresco, até então característica predominante nas manifestações poéticas. No Cancioneiro Geral – obra de poesia organizada por esse poeta em 1516 – pode-se ressaltar suas “Trovas à Morte de Inês de Castro”.
A forma narrativa que Resende usa para contar os acontecimentos ocorridos com Inês de Castro, a trova, de certa forma é interessante, pois utiliza o sistema de rimas intercaladas. As rimas utilizadas para a narração das trovas intercalam-se entre o uso de AB/AB e AB/BA, em praticamente todas as estrofes da trova, as quais grande maioria iniciam com a construção AB/AB e alteram para a construção AB/BA, como no exemplo citado a seguir: “Senhoras, s'algum senhor/ vos quiser bem ou servir,/ quem tomar tal servidor,/ eu lhe quero descobrir/ o galardam do amor./ Por Sua Mercê saber/ o que deve de fazer/ vej'o que fez esta dama,/ que de si vos dará fama,/ s'estas trovas quereis ler.”
Pode-se perceber, também, na Fala de D. Inês, esse tipo de estrutura; mas o que mais caracteriza a Fala é como o narrador nos mostra a personagem, a visão que nos traz dela. Inês de Castro, de acordo com Resende, aparece como uma mulher que pede misericórdia, que se expõe como vítima do acontecido, demonstrando certa ingenuidade e virtude por parte da personagem. Podemos notar essa clama e esse tom de misericórdia na estrofe que segue: “Qual será o coração/ tam cru e sem piadade,/ que lhe nam cause paixam/ úa tam gram crueldade/ e morte tam sem rezam?/ Triste de mim, inocente,/ que, por ter muito fervente/ lealdade, fé, amor/ ó príncepe, meu senhor,/ me mataram cruamente!”.
Também podemos ver a virtude e ingenuidade por parte de Inês nas duas estrofes que seguem: “Eu era moça, menina,/ per nome Dona Inês/ de Castro, e de tal doutrina/ e vertudes, qu'era dina/ de meu mal ser ó revés./ Vivia sem me lembrar/ que paixam podia dar/ nem dá-la ninguém a mim:/ foi-m'o príncepe olhar,/ por seu nojo e minha fim. (...) Dei-lhe minha liberdade,/ nam senti perda de fama;/ pus nele minha verdade/ quis fazer sua vontade,/ sendo mui fremosa dama./ Por m'estas obras pagar/ nunca jamais quis casar;/ polo qual aconselhado/ foi el-rei qu'era forçado,/ polo seu, de me matar”.
            Quando falamos de misericórdia, acredita-se que, por ela estar indagando através da trova uma forma de explicar a crueldade que sofreu e que causou a sua morte, ela está implorando e pondo em questão que não pode haver pessoas tão ruins quanto as que o fizeram. Acredita-se também que, neste verso, apresenta-se o fato de que esses acontecimentos narrados neste e a partir deste estão situados num tempo anterior ao da narração, pois Resende nos traz a trova numa tentativa de transpor Inês para o tempo presente da narrativa, colocando-a como narradora, a fim de que se considere que ela ainda está viva nas histórias que eram contadas pelas pessoas que viviam naquela época.
Quanto à ingenuidade e virtude, considera-se que nessas trovas apresentadas acima consta o tom de sedução por parte de D. Pedro, quando ela o mira, e então se apaixona; por certo, quando ela se refere a ‘fim’, subentende-se que ela pressente algo de negativo quanto a seu futuro. A virtude e a ingenuidade sem encontram nas estrofes quando Inês menciona que entrega sua liberdade e que se decide não mais se casar para poder desfrutar de seu amor por D. Pedro, demonstrando que, para viver esse amor, faria de tudo. Temos, nesta estrofe, uma visão melancólica e apaixonada da parte de Inês de Castro, que, unida à forma de narração, às rimas e aos demais apontamentos, constituem as características da poesia palaciana.
Garcia de Resende, ao escrever estas trovas, dá segmento a partir da individualidade, da consciência de si próprio para o reconhecimento dos outros e do meio. Um exemplo explícito disso é a fala de Dona Inês, onde Resende a coloca como quem estivesse narrando o ocorrido. 

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