sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Viração*


Por Elizandro Rodrigues

A tarde se iniciara com um mormaço típico do verão. Era um dia veranil desses de início de ano, os mais intensos; os habitantes da Villa do Arroio Grande já haviam sofrido bastante com o calor que fizera na virada do ano. Não tardaria muito para este cenário ser alterado. Percebendo uma diferença repentina no tom azul do céu, a velha senhora fitou a observá-lo da janela de casa, que se localizava defronte à praça. Quando notou um caminhar celeste de nuvens fora de seu compasso normal, foi ao pátio, pegou um machado de cabo curto e saiu, rua afora, pela Principal, em direção ao arroio. Quando chegou ao pastiçal que antecedia às águas, já observava nuvens escuras ao horizonte; a brisa se transformava aos poucos em vento. Empunhada do machado, murmurou algumas palavras e lançou-o, cravando-o na terra; virou-se de costas e veio na direção de sua casa, sem mais olhar para trás. Chegou e foi para a janela novamente, a fim de observar os movimentos celestes. 


Na vila, todos ficaram assustados com a mudança brusca no tempo: assim que o vento começou, a temperatura caiu repentinamente. O Sr. Maciel, assustado, saiu à porta de seu estabelecimento e foi em direção à esquina, quando, olhando na direção do arroio, se deparou com um paredão escuro e assombroso de nuvens que se formara no horizonte. Um conhecido seu passava na rua e lhe comentou da viração, para o qual respondeu: “Fiquei impressionado com a mudança abrupta de tempo, meu caro; tanto que já dispensei os serviçais e estou fechando a Pharmacia por hoje”. Com um aceno ao conhecido, recolheu-se, ação esta por todos realizada. Às duas e meia da tarde, não havia uma alma sequer pelas ruas da vila; o único som que se ouvia era dos relâmpagos acompanhados do uivar do vento. 


E o dia virara noite: por volta das três horas começara o temporal; a chuva caía do céu com tamanha força e velocidade, como que se houvesse algo acima dela a pressioná-la; a cântaros, as ruas de terra do povoado eram varridas pela enxurrada. O vento, por sua vez, possuía a bravura de um exército em plena guerra: lançava-se com a chuva por sobre os vidros das janelas do casario e rebolqueava, num anseio satânico, a copa das árvores da praça. A torrente era tanta que pouco se enxergava para a rua; foram momentos de bastante aflição. Eis um espetáculo sinistro que a natureza proporcionou naquele dia. E a velha senhora continuava na janela, murmurando, a observar a tempestade. Quando a chuva cessou, as autoridades da vila saíram a recorrer as casas, com a finalidade de fazer um levantamento de possíveis avarias. Para a surpresa daqueles homens, uma telha sequer foi mexida com o vento, tampouco sequer uma palha de santa fé foi arrancada de algum rancho pela ventania. O temporal passou pela vila e não deixou estragos. Ao final da tarde, o céu já havia clareado, possibilitando que despontasse no horizonte um belo pôr-do-sol, acompanhado de brancas e finas nuvens, as quais mais se assemelhavam à seda de um enxoval de uma jovem prestes a casar. A velha senhora, a passos lentos, se dirigiu na direção do arroio, a fim de buscar o machado; enquanto caminhava, murmurava. Em seus olhos, chorosos de felicidade, estava retratado o significado do murmúrio: agradecimento. Sua missão, afinal, havia sido cumprida...

*Crônica publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 19.01.2017.

Navegantes*


Por Elizandro Rodrigues

Após o almoço, Miguel se retirou da mesa, subiu as escadas e foi para a biblioteca, a fim de descansar acompanhado de uma boa leitura. Era Dia de Nossa Senhora dos Navegantes e ele estava de férias no Arroio Grande, no sobrado de sua família, em razão do recesso da Faculdade de Direito na capital. O início da tarde, naquele dia, apresentava um precoce frescor de outono, demonstrando que o verão, contrariando as previsões, despedir-se-ia mais cedo. Apesar disso, o sol brilhava, acompanhado de um azul celeste bastante acentuado. Uma nuvem sequer havia para que fizesse sombra sobre estas terras de paz. Aliás, muito raramente costuma chover nesta região na ocorrência desta data. Sentado à beira da janela, o jovem apreciava a leitura de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões; naquele momento, estava a ler o 4º Canto da obra do escritor português, no momento em que ele descreve os preparativos para a partida de Vasco da Gama desde a Praia de Belém e o choro e lamento daqueles que ficavam e assistiam a partida das naus rumo ao mar impiedoso. Atônito, Miguel buscou o marca-páginas na mesa de apoio, fechou o livro e viajou em seus pensamentos. Olhando pela janela, começou a associar os acontecimentos narrados por Camões com a conhecida religiosidade dos portugueses, trazida para estas terras com os colonizadores. Apesar de ser conhecedor da devoção das pessoas à protetora dos que se aventuram nas águas, veio à sua mente uma comoção repentina. Interrompido de seus pensamentos, ouviu uma movimentação vinda da rua. Era aproximadamente três horas da tarde quando o jovem descia as escadas, ao mesmo tempo em que vestia o paletó, indo na direção do portal do sobrado. Parado nos degraus de mármore da entrada do prédio, observou o aglomerado de pessoas que vinham pela rua caminhando em direção à Matriz: era a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Aqueles que vinham na frente carregavam a estátua de Nossa Senhora envolta em um manto azul-marinho, posta dentro da miniatura de um barco de madeira. Quatro eram os fiéis que a carregavam. Os demais integrantes da procissão vinham atrás daqueles primeiros, carregando consigo uma vela acesa em uma das mãos e o terço enrolado ao pulso, enquanto que na outra mão traziam ramos de flores. Em coro, cantavam em tom de voz médio liturgias alusivas à data que ora se comemorava. Um sentimento diferente tomou conta de Miguel, que, ao ver se aproximar a procissão – a qual passou em frente à sua casa, uma vez que esta se localizava na rua que se dirigia à Matriz –, juntou-se aos demais fiéis e os seguiu no cortejo à padroeira dos que navegam. Da Matriz, acompanhados do padre – que naquele momento a eles havia se juntado – os fiéis se dirigiram à ponte e, consequentemente, ao arroio. À beira das águas, o padre proferiu um sermão seguido de orações, aos quais os fiéis ouviam atentamente. Foi então o momento em que se repousou a pequena embarcação com a estátua de Nossa Senhora nas águas: os quatro fiéis dela ficaram próximos, uma vez que a protetora retornaria em procissão à igreja. Enquanto isso, os demais faziam seus pedidos e suas orações às margens do arroio, largando os ramos de flores em seu leito, como que em agradecimento à proteção ora concedida pela padroeira das águas. O jovem assistia a tudo muito emocionado, posto que nunca havia participado de uma procissão em homenagem à Nossa Senhora dos Navegantes. Após, o cortejo retornou em direção à igreja, onde ocorreu a dispersão dos fiéis, momento em que retornaram às suas casas. Miguel, a passos vagarosos, caminhava em direção ao sobrado. Em sua mente, os acontecimentos eram rememorados como que se lhe passasse uma fita de cinema. Chegando no prédio, adentrou, caminhou pelo largo corredor e foi em direção aos fundos, à cozinha; solicitou à criada que lhe preparasse um café e o levasse à biblioteca, onde estaria. Lá, à beira da janela, onde o sol apresentava os primeiros raios sinalizando o fim do dia, o jovem seguiu a leitura dos Lusíadas, acompanhada de suas recordações daquela tarde distinta em sua vida...

*Ficção publicada originalmente na Coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico de Arroio Grande, Jornal Correio do Sul, em 03.02.2017.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

As Camélias da Chácara*


Lembro-me como hoje: ia de mãos dadas com minha mãe, rumo ao cemitério – era dia de finados. A tarde estava bela, ensolarada, clima aprazível, apresentando os primeiros sinais do verão. Havíamos atravessado a cidade e nos encontrávamos no trajeto final que nos conduzia a uma visita à morada dos entes que daqui se foram. Era de costume naquela época comprarmos flores numa propriedade próxima àquele local: uma chácara cujo jardim, assim que nele se chegava, o mundo se transformava: a conhecida Chácara do Aquilino.
Beirávamos o aramado da propriedade, quando minha mãe me alertou de nossa parada na sede, em cujo local compraríamos flores. Mamãe desde então me avisava para que em silêncio ficasse assim que chegássemos no local, chamando-me a atenção, também, para que de seu lado não saísse enquanto ali estivéssemos.
Algo impossível de ser cumprido: assim que chegamos à sede e caminhávamos à beira do muro, a fim de adquirir as flores, não conseguia desviar os olhos de tamanha beleza. Por entre as grades, avistava aquela explosão de cores que vinha do jardim, contrastada com o verde das folhas recém-nascidas da primavera e o morno sol que banhava aquela tarde. Dentre as cores, as camélias...
Ah, as camélias... Mamãe havia batido à porta, eu ao seu lado – ainda em transe com toda aquela beleza que se apresentava aos meus olhos – quando uma senhora, já de meia idade, vestida em uma camisa branca e uma saia comprida, na cor azul marinho, sobreposta de um avental, atendeu a porta. Naquele instante, ela e mamãe conversavam e acertavam a compra, enquanto meu olhar e minhas pernas conduziam-me na direção do chafariz, ao centro do jardim. Ali chegando, a sensação era de como se eu estivesse em um mundo à parte: era como se fosse outro tempo, outro momento. 


A profusão de camélias naquele jardim encantava e hipnotizava os olhos de quem quer que ali chegasse, tamanha a gama de cores que delas emanava. As brancas balançavam-se em meio à brisa que soprava do sul, enquanto que as vermelhas, mais abrigadas ao centro do jardim, brilhavam e reluziam com o banho de sol que ora recebiam. As matizadas tinham seu abrigo próximo à casa, e seus tons contrastavam com os contornos da arquitetura da fachada do prédio.
Como que de pronto, mamãe me chamou, já havia comprado alguns ramos de camélias e estava a me aguardar, a fim de seguirmos nosso rumo em direção ao cemitério. No caminho, rememorava aquele belo instante de há pouco, lembrando, também, das histórias que havia lido. Sentia-me tal qual Alice, no momento que retornou do País das Maravilhas.
Hoje, quando passo por ali, tenho o mesmo sentimento que nomeia a avenida cujo trajeto hoje faço e outrora fazia: saudade. Saudade daqueles que se foram, saudades dos belos momentos vividos; saudades daquele jardim, saudades do tempo que não volta mais. Mas algo é certo: permanece vívida, em minha memória, a lembrança. Lembrança das cores, do perfume, da atmosfera mágica daquele local; a lembrança... das camélias da chácara.

*Uma ficção de Elizandro Rodrigues de Rodrigues. Publicada originalmente no Jornal Correio do Sul de Arroio Grande, em 30 de junho de 2016.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Um Simpático Senhor*


Sentado à sala da biblioteca, lá estava. Há pouco, terminara a leitura do penúltimo fragmento de Memórias Póstumas. Era cedo da tarde, e, enquanto descansava em sua poltrona, aquele Senhor encontrava-se pensando na vida, nos seus feitos e conquistas, erros e acertos. Eis que, de repente, alguém bate à porta, abrindo-a logo em seguida, adentrando no recinto.
Era um jovem: cabelos ao ombro, olhos na cor de lago, vestido de branco; era daquelas pessoas das quais se tinha a impressão de que trazia, consigo, uma paz de espírito em largas proporções. Disse-lhe o Senhor:
- Cedo chegastes... Esperava-o para mais tarde.
- Que é o tempo, meu amigo, se não uma ilusão criada para entreter os homens na roda da vida...
- De fato, meu jovem, de fato...
Convidou-o para se sentar ao sofá e fazer-lhe companhia. Em seguida, perguntou-lhe, quase que como externando uma reflexão:
- Meu jovem: antes de chegares, estava, cá, recordando-me de minha trajetória. O avançado da idade nos ocasiona isto: lembranças, lembranças... Será que tudo que fiz, tudo que construí, todo legado que compus... Terá sido suficiente? Terá valido a pena? Pego-me a pensar muito a respeito...
O rapaz, sem hesitar, respondeu-lhe:
- Meu amigo... Toda nossa contribuição e tudo aquilo que fizermos em nossa trajetória sempre terá valido a pena... Não tarda a chegar o momento em que algum iniciado, num futuro próximo, desenvolverá melhor essa filosofia para a humanidade...
Ali ficaram. Conversavam sobre tudo: economia, política, os mais variados assuntos. Experiências de um homem vivido, que por muita coisa passou e presenciou, compartilhadas oralmente com quem trazia junto de si a juventude. E as horas passaram...
Num determinado momento, o jovem interrompeu e lhe disse:
- Meu caro Visconde, é chegada a hora de irmos.
- Oh, sim... Que devo fazer, meu jovem? Devo despedir-me?
- Não são necessárias despedidas, meu caro amigo... Tudo faz parte de um ciclo e de um movimento contínuos.
E foram.
Os dois, juntos, a passos vagarosos, retiraram-se da biblioteca, caminharam pelo corredor e dirigiram-se ao jardim. Em meio à luz, partiram.
E assim tudo segue: pessoas vêm, pessoas vão, coisas acontecem, surgem e ressurgem. É apenas o princípio...


*Uma ficção de Elizandro Rodrigues de Rodrigues. Publicado originalmente no Jornal Correio do Sul, na coluna dos Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande, em 29.10.2015.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Gumercindo Saraiva, o Napoleão dos Pampas (Entrevista)*

Por Elizandro Rodrigues de Rodrigues
 
Litografia de Gumercindo Saraiva. Origem: Wikipédia
Recentemente, a Srª Nádia Costa Botelho das Neves defendeu seu Artigo de Especialização junto ao Programa de Pós-graduação da Unipampa, intitulado “Língua Espanhola pelas Fronteiras de Gumercindo Saraiva”, resultante de uma pesquisa sobre esta importante figura histórica, visando sua aplicabilidade no ensino local. Nádia figura num grupo pequeno de pessoas de nossa cidade que pesquisam sobre Gumercindo, razão pela qual a entrevistei, cujo relato segue.
 
Gumercindo Saraiva. Origem: Wikipédia
Gumercindo Saraiva, além de um personagem histórico, é nome de uma das ruas aqui de Arroio Grande. Antes de realizar a pesquisa, você já tinha conhecimento da figura histórica? De que forma?
Antes não o conhecia, mesmo figurando como nome de uma rua. A associação do nome da rua com a figura histórica se deu quando li o texto Fronterizos, de John Chasteen, momento em que acabei fazendo relação direta do personagem com o logradouro. Isso gerou questionamentos que me conduziram a dialogar com meu orientador, buscando fazer uma pesquisa sobre esse vulto histórico.

Conte sobre sua experiência em pesquisar a respeito de Gumercindo Saraiva para elaborar seu trabalho
Foi uma experiência bastante gratificante, pelo fato de aprender ainda mais sobre a história. Isso só foi possível pelo auxílio que tive de meu orientador e das obras que li a respeito de Gumercindo Saraiva. O que mais me chamou a atenção foi o caminho que ele percorreu, desde jovem, para se transformar nesta figura de tamanha relevância histórica.

O cerne da sua pesquisa visou contemplar um trabalho em sala de aula a partir de elementos histórico-culturais. Como vês hoje, por parte dos jovens, a valorização das pessoas que fizeram a história de nossa cidade
Estamos dentro de uma fronteira, mesmo que não percebamos; essa fronteira nos agracia principalmente no nosso léxico, pois usamos muitas expressões oriundas do espanhol. Pelo fato de fazermos parte desta fronteira, tive como enfoque o fato de não darmos tanto valor à língua espanhola, que deveria ser mais explorada. Não creio que os jovens tenham o devido conhecimento das figuras históricas; mas não é culpa deles, mesmo porque desenvolver o gosto pela literatura é um trabalho árduo, e, na maioria das vezes, às outras áreas do conhecimento é dada maior importância. Se não se repensar a maneira como são vistos o espanhol e a literatura, como esperar que estes jovens adquiram este conhecimento e valorizem quem foram os baluartes que formaram o Arroio Grande?


Ao momento em que terminastes o teu artigo acadêmico, como passastes a relacionar Gumercindo e o Arroio Grande? 
Passei a admirá-lo ainda mais, e, ao mesmo tempo, sentir uma parcela grande de pesar, pois até o momento não vi nada mais a lembrar que ele foi um cidadão arroio-grandense, uma figura histórica de relevância. Nós, enquanto cidadãos, estamos omissos, pois nada se tem feito para rememorá-lo. Acredito que agora que temos os Defensores [do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande], esta falta para com Gumercindo Saraiva será sanada.

*Entrevista publicada originalmente na coluna dos DEFENSORES-AG, do Jornal Correio do Sul, Arroio Grande/RS, em 16.06.2016.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Um Casamento a Recordar*

Igreja de Santa Isabel. Origem da foto: Facebook.
Aquela manhã acordava com certa leveza no ar; minha mãe havia desde o dia anterior iniciado todos os preparativos em nossa casa – o bolo estava confeitado, os quitutes, encaminhados; eu e ela já havíamos buscado meu vestido na costureira, todas as provas foram realizadas e ele estava impecável; a Matriz de Santa Isabel, por sua vez, já se encontrava com sua nave enfeitada em arranjos de madressilvas e rosas brancas, entrelaçados, exalando um agradável perfume no ar. Era um dia de primavera e a brisa abraçava os eucaliptos próximos à nossa casa. Tudo estava pronto para aquele que veio a ser um dos momentos mais importantes de minha vida: era meu casamento.
Meu pai, assim como seus antecessores portugueses, não dispensava um festejo em uma data desse porte: preparou, com o auxílio de meus irmãos mais velhos, um valão ao fundo do pátio, onde seria feito um grande assado após a cerimônia. Enquanto ele organizava, eu e mamãe, juntamente com minha tia, dispomos a mesa para os quitutes abaixo da parreira, esta que, por sua vez, já começava a estender seus galhos por sobre as armações. Após, fomos, todos, prepararmo-nos para a cerimônia.
Depois de prontos, mamãe, papai e todos os demais foram indo à frente, em direção à Matriz – nossa chácara ficava bem próxima ao vilarejo –; lá chegando, entraram pelo portão e, à direita, conduziram-se à sacristia. Ali esperariam a minha chegada, para logo em seguida irem em direção ao altar. Esperava, eu, no alpendre da sede; manico, como carinhosamente chamava meu irmão mais velho, estava terminando de pentear os cavalos da charrete que nos levaria à vila e, consequentemente, à igreja. Finda esta atividade, parou a condução em frente à casa, estendeu-me sua mão, em auxílio para a minha subida ao veículo, desejando-me, logo em seguida, com um olhar fixo em meus olhos, toda a felicidade do mundo.
Ao momento em que chegamos à Matriz, manico foi chamar papai. Este, de pronto, veio até mim e, num sussurro ao pé de meu ouvido, abençoou minha união. De imediato, anunciou, já em início de condução ao portal, que o noivo estava à minha espera num misto de nervosismo e felicidade. Ao rosto, eu expressava uma aparente serenidade, mas hoje confesso que uma certa ansiedade habitava meus sentidos naquele momento.
Adentramos à igreja e todos se levantaram. Enquanto papai me conduzia pela nave, uma Ave-Maria serena e leve era cantada, em tom harmônico ao azul-e-branco dos ornamentos do altar. Em seguida, conduziu-me, junto com meu noivo, à frente do padre. Durante a fala do clérigo, rogava em meus pensamentos aos santos daquele altar que nossa união fosse por eles iluminada. Após colocarmos as alianças, o padre autorizou meu agora marido a beijar-me. Ele levantou meu véu e beijou-me a testa, e, naquele beijo, senti toda a cumplicidade e companheirismo que teríamos ao longo de nossas vidas. Ao momento em que saímos da igreja e após a chuva de arroz, dirigimo-nos para casa, onde continuaria a festa, que perdurou a noite toda. 
Já remonta muito tempo desde então: naquela época, sequer havia chegado até nós a existência do rádio, e nossas noites eram embaladas pela luz de lampiões a querosene somada às histórias que os mais velhos contavam. Porém, bons momentos como este que aqui narrei, guardamos em nossos corações com toda a ternura e com tudo que há de bom em nossas vidas; afinal, o tempo não pode apagar emoções tão ternas e tão marcantes em nós...

*Texto Ficcional. Publicado originalmente em duas partes na coluna dos DEFENSORES-AG, do Jornal Correio do Sul de Arroio Grande/RS, em 18.02.2016 e 25.02.2016.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Uma Associação em Defesa do Patrimônio Arroio-grandense

Nos últimos tempos, movimentos em prol da preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural têm crescido em todo o país, sejam motivados por políticas públicas empenhadas e flexibilizadas para com este setor, sejam pelo crescente número de pessoas engajadas na promoção de legados para a contemporaneidade, sendo eles tanto materiais como imateriais. Uma semente plantada, cujos brotos começam a vigorar e tornarem-se ramos.
Panorâmica horizontal de Arroio Grande. Origem: Acervo Pessoal.
Com Arroio Grande não poderia ser diferente. No ano de 2013, precisamente na data de 02 de abril, surge um grupo na rede social Facebook, com o intuito de reunir todos aqueles que possuíssem interesse na defesa do patrimônio da cidade de Arroio Grande, os “Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS”, criado pela Professora Carla Hernandez Silveira Machado. A partir de então, o grupo passou a divulgar todo tipo de conteúdo virtual que viesse ao encontro da causa, desde fotos, textos e até vídeos, procurando o resgate da memória sociocultural do Município.
Recente reunião da Associação de Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS. Foto: Carla Hernandez Silveira Machado.
Os Defensores foram ganhando fôlego e, no mesmo ano, participaram de uma Sessão Ordinária na Câmara de Vereadores, reivindicando pela causa da preservação patrimonial, apresentando-a para a sociedade e sublinhando a sua importância. Àquele momento, o grupo já contava com aproximadamente 700 integrantes. 
A "Voz dos Pampas", torre pela qual outrora se divulgavam acontecimentos na cidade. Origem: Acervo pessoal
E o número não parou de crescer, assim como o engajamento em prol da conservação de espaços e memórias. Duas lutas do grupo neste sentido podem ser mencionadas, sendo uma delas no intuito de que acontecesse a restauração do primeiro prédio da Câmara Municipal, situado na esquina das Ruas Doutor Monteiro e Herculano de Freitas – hoje, vemos a iniciativa tomando concretude, uma vez que foi dado início à reforma do mencionado prédio –; a segunda, por sua vez, veio ao encontro de homenagear os 170 anos do falecimento de Joaquim Teixeira Nunes, herói farroupilha cujos restos mortais jazem no adro da Igreja Matriz.
Prédio onde foi situada a Primeira Câmara Municipal. Aquarela de Lizandro Araújo.
A causa do grupo, desde então, tem tomado reconhecimento em maiores proporções dentre os arroio-grandenses. Por esse motivo, está-se formando uma associação, a “Associação de Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS” – DEFENSORES-AG, cujos objetivos vêm ao encontro de valorizar, recuperar, restaurar e preservar legados histórico-culturais; promover eventos de cunho educacional e cultural; assim como desenvolver mecanismos que garantam a preservação do patrimônio histórico – material e imaterial – e cultural do Município, dentre outros. 
Torre da Igreja Matriz de Arroio Grande. Origem: Acervo pessoal.
Imerso a toda essa trajetória e finalidades, tem-se um objetivo-mestre: a conscientização de todos da importância de preservar. Preservar é alargar nossa memória e existência para além dos limites físicos a que somos condicionados.  Preservar é proporcionar às gerações futuras e às atuais uma identidade firmada. Preservar é compor-se como um indivíduo consciente de sua história. Preservar é viver.