sexta-feira, 1 de julho de 2016

Gumercindo Saraiva, o Napoleão dos Pampas (Entrevista)*

Por Elizandro Rodrigues de Rodrigues
 
Litografia de Gumercindo Saraiva. Origem: Wikipédia
Recentemente, a Srª Nádia Costa Botelho das Neves defendeu seu Artigo de Especialização junto ao Programa de Pós-graduação da Unipampa, intitulado “Língua Espanhola pelas Fronteiras de Gumercindo Saraiva”, resultante de uma pesquisa sobre esta importante figura histórica, visando sua aplicabilidade no ensino local. Nádia figura num grupo pequeno de pessoas de nossa cidade que pesquisam sobre Gumercindo, razão pela qual a entrevistei, cujo relato segue.
 
Gumercindo Saraiva. Origem: Wikipédia
Gumercindo Saraiva, além de um personagem histórico, é nome de uma das ruas aqui de Arroio Grande. Antes de realizar a pesquisa, você já tinha conhecimento da figura histórica? De que forma?
Antes não o conhecia, mesmo figurando como nome de uma rua. A associação do nome da rua com a figura histórica se deu quando li o texto Fronterizos, de John Chasteen, momento em que acabei fazendo relação direta do personagem com o logradouro. Isso gerou questionamentos que me conduziram a dialogar com meu orientador, buscando fazer uma pesquisa sobre esse vulto histórico.

Conte sobre sua experiência em pesquisar a respeito de Gumercindo Saraiva para elaborar seu trabalho. 
Foi uma experiência bastante gratificante, pelo fato de aprender ainda mais sobre a história. Isso só foi possível pelo auxílio que tive de meu orientador e das obras que li a respeito de Gumercindo Saraiva. O que mais me chamou a atenção foi o caminho que ele percorreu, desde jovem, para se transformar nesta figura de tamanha relevância histórica.

O cerne da sua pesquisa visou contemplar um trabalho em sala de aula a partir de elementos histórico-culturais. Como vês hoje, por parte dos jovens, a valorização das pessoas que fizeram a história de nossa cidade? 
Estamos dentro de uma fronteira, mesmo que não percebamos; essa fronteira nos agracia principalmente no nosso léxico, pois usamos muitas expressões oriundas do espanhol. Pelo fato de fazermos parte desta fronteira, tive como enfoque o fato de não darmos tanto valor à língua espanhola, que deveria ser mais explorada. Não creio que os jovens tenham o devido conhecimento das figuras históricas; mas não é culpa deles, mesmo porque desenvolver o gosto pela literatura é um trabalho árduo, e, na maioria das vezes, às outras áreas do conhecimento é dada maior importância. Se não se repensar a maneira como são vistos o espanhol e a literatura, como esperar que estes jovens adquiram este conhecimento e valorizem quem foram os baluartes que formaram o Arroio Grande?


Ao momento em que terminastes o teu artigo acadêmico, como passastes a relacionar Gumercindo e o Arroio Grande? 
Passei a admirá-lo ainda mais, e, ao mesmo tempo, sentir uma parcela grande de pesar, pois até o momento não vi nada mais a lembrar que ele foi um cidadão arroio-grandense, uma figura histórica de relevância. Nós, enquanto cidadãos, estamos omissos, pois nada se tem feito para rememorá-lo. Acredito que agora que temos os Defensores [do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande], esta falta para com Gumercindo Saraiva será sanada.

*Entrevista publicada originalmente na coluna dos DEFENSORES-AG, do Jornal Correio do Sul, Arroio Grande/RS, em 16.06.2016.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Um Casamento a Recordar*

Igreja de Santa Isabel. Origem da foto: Facebook.
Aquela manhã acordava com certa leveza no ar; minha mãe havia desde o dia anterior iniciado todos os preparativos em nossa casa – o bolo estava confeitado, os quitutes, encaminhados; eu e ela já havíamos buscado meu vestido na costureira, todas as provas foram realizadas e ele estava impecável; a Matriz de Santa Isabel, por sua vez, já se encontrava com sua nave enfeitada em arranjos de madressilvas e rosas brancas, entrelaçados, exalando um agradável perfume no ar. Era um dia de primavera e a brisa abraçava os eucaliptos próximos à nossa casa. Tudo estava pronto para aquele que veio a ser um dos momentos mais importantes de minha vida: era meu casamento.
Meu pai, assim como seus antecessores portugueses, não dispensava um festejo em uma data desse porte: preparou, com o auxílio de meus irmãos mais velhos, um valão ao fundo do pátio, onde seria feito um grande assado após a cerimônia. Enquanto ele organizava, eu e mamãe, juntamente com minha tia, dispomos a mesa para os quitutes abaixo da parreira, esta que, por sua vez, já começava a estender seus galhos por sobre as armações. Após, fomos, todos, prepararmo-nos para a cerimônia.
Depois de prontos, mamãe, papai e todos os demais foram indo à frente, em direção à Matriz – nossa chácara ficava bem próxima ao vilarejo –; lá chegando, entraram pelo portão e, à direita, conduziram-se à sacristia. Ali esperariam a minha chegada, para logo em seguida irem em direção ao altar. Esperava, eu, no alpendre da sede; manico, como carinhosamente chamava meu irmão mais velho, estava terminando de pentear os cavalos da charrete que nos levaria à vila e, consequentemente, à igreja. Finda esta atividade, parou a condução em frente à casa, estendeu-me sua mão, em auxílio para a minha subida ao veículo, desejando-me, logo em seguida, com um olhar fixo em meus olhos, toda a felicidade do mundo.
Ao momento em que chegamos à Matriz, manico foi chamar papai. Este, de pronto, veio até mim e, num sussurro ao pé de meu ouvido, abençoou minha união. De imediato, anunciou, já em início de condução ao portal, que o noivo estava à minha espera num misto de nervosismo e felicidade. Ao rosto, eu expressava uma aparente serenidade, mas hoje confesso que uma certa ansiedade habitava meus sentidos naquele momento.
Adentramos à igreja e todos se levantaram. Enquanto papai me conduzia pela nave, uma Ave-Maria serena e leve era cantada, em tom harmônico ao azul-e-branco dos ornamentos do altar. Em seguida, conduziu-me, junto com meu noivo, à frente do padre. Durante a fala do clérigo, rogava em meus pensamentos aos santos daquele altar que nossa união fosse por eles iluminada. Após colocarmos as alianças, o padre autorizou meu agora marido a beijar-me. Ele levantou meu véu e beijou-me a testa, e, naquele beijo, senti toda a cumplicidade e companheirismo que teríamos ao longo de nossas vidas. Ao momento em que saímos da igreja e após a chuva de arroz, dirigimo-nos para casa, onde continuaria a festa, que perdurou a noite toda. 
Já remonta muito tempo desde então: naquela época, sequer havia chegado até nós a existência do rádio, e nossas noites eram embaladas pela luz de lampiões a querosene somada às histórias que os mais velhos contavam. Porém, bons momentos como este que aqui narrei, guardamos em nossos corações com toda a ternura e com tudo que há de bom em nossas vidas; afinal, o tempo não pode apagar emoções tão ternas e tão marcantes em nós...

*Texto Ficcional. Publicado originalmente em duas partes na coluna dos DEFENSORES-AG, do Jornal Correio do Sul de Arroio Grande/RS, em 18.02.2016 e 25.02.2016.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Uma Associação em Defesa do Patrimônio Arroio-grandense

Nos últimos tempos, movimentos em prol da preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural têm crescido em todo o país, sejam motivados por políticas públicas empenhadas e flexibilizadas para com este setor, sejam pelo crescente número de pessoas engajadas na promoção de legados para a contemporaneidade, sendo eles tanto materiais como imateriais. Uma semente plantada, cujos brotos começam a vigorar e tornarem-se ramos.
Panorâmica horizontal de Arroio Grande. Origem: Acervo Pessoal.
Com Arroio Grande não poderia ser diferente. No ano de 2013, precisamente na data de 02 de abril, surge um grupo na rede social Facebook, com o intuito de reunir todos aqueles que possuíssem interesse na defesa do patrimônio da cidade de Arroio Grande, os “Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS”, criado pela Professora Carla Hernandez Silveira Machado. A partir de então, o grupo passou a divulgar todo tipo de conteúdo virtual que viesse ao encontro da causa, desde fotos, textos e até vídeos, procurando o resgate da memória sociocultural do Município.
Recente reunião da Associação de Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS. Foto: Carla Hernandez Silveira Machado.
Os Defensores foram ganhando fôlego e, no mesmo ano, participaram de uma Sessão Ordinária na Câmara de Vereadores, reivindicando pela causa da preservação patrimonial, apresentando-a para a sociedade e sublinhando a sua importância. Àquele momento, o grupo já contava com aproximadamente 700 integrantes. 
A "Voz dos Pampas", torre pela qual outrora se divulgavam acontecimentos na cidade. Origem: Acervo pessoal
E o número não parou de crescer, assim como o engajamento em prol da conservação de espaços e memórias. Duas lutas do grupo neste sentido podem ser mencionadas, sendo uma delas no intuito de que acontecesse a restauração do primeiro prédio da Câmara Municipal, situado na esquina das Ruas Doutor Monteiro e Herculano de Freitas – hoje, vemos a iniciativa tomando concretude, uma vez que foi dado início à reforma do mencionado prédio –; a segunda, por sua vez, veio ao encontro de homenagear os 170 anos do falecimento de Joaquim Teixeira Nunes, herói farroupilha cujos restos mortais jazem no adro da Igreja Matriz.
Prédio onde foi situada a Primeira Câmara Municipal. Aquarela de Lizandro Araújo.
A causa do grupo, desde então, tem tomado reconhecimento em maiores proporções dentre os arroio-grandenses. Por esse motivo, está-se formando uma associação, a “Associação de Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS” – DEFENSORES-AG, cujos objetivos vêm ao encontro de valorizar, recuperar, restaurar e preservar legados histórico-culturais; promover eventos de cunho educacional e cultural; assim como desenvolver mecanismos que garantam a preservação do patrimônio histórico – material e imaterial – e cultural do Município, dentre outros. 
Torre da Igreja Matriz de Arroio Grande. Origem: Acervo pessoal.
Imerso a toda essa trajetória e finalidades, tem-se um objetivo-mestre: a conscientização de todos da importância de preservar. Preservar é alargar nossa memória e existência para além dos limites físicos a que somos condicionados.  Preservar é proporcionar às gerações futuras e às atuais uma identidade firmada. Preservar é compor-se como um indivíduo consciente de sua história. Preservar é viver.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um Convite aos Poemas de Plástico, de Gustavo Rückert

Por Elizandro Rodrigues de Rodrigues

Lê-se a primeira página e passa-se à segunda; lê-se a terceira e quarta e assim por diante; quando vemos, chegamos à metade do livro, acompanhados de muitas instigações, tão atrativa, reflexiva e empolgante a sua leitura o é. Assim pode ser definido Poemas de Plástico, de Gustavo Rückert. Uma surpresa poética, que, ao condicionar a poesia ao status de plasticidade, nos permite refletir o texto e a linguagem como objeto artístico na conjuntura estabelecida pelo panorama cultural contemporâneo. Arriscaria, neste momento, uma alusão a Andy Warhol – de imediato título e capa me remeteram ao artista pop. 
E quando chamo a atenção para o dinamismo e atratividade contidos no livro falo sério: o magnetismo constante nos versos e estrofes nos cativa, ao ponto de vermos poesia, também, nos espaços não grafados das páginas; o poema, assim, possui propulsão que faz com que extravase a limes dos sentidos, compondo seu significado próprio e estabelecendo um diálogo constante – tanto reflexivo como de alteridade, arriscar-me-ia novamente – com o leitor. 
Num mundo segregado de questões político-sociais e culturais, Poemas de Plástico nos chega promovendo uma reflexão sobre temas que, em razão do cotidiano, deixamos muitas vezes de lado, como o tempo, a religiosidade, a filosofia, a existência, o próprio cotidiano, entre tantos outros. Todos eles, entrelaçados, costurados, separados e/ou justapostos, trabalham harmonicamente em um jogo de sentidos múltiplos que faz com que a fruição habite em nós como uma segunda pele, promovendo, juntamente, retomadas, alusões, menções e referências, como em “Aristóteles, inventor do relógio” e “Poema de nenhuma verdade”.

Plástico é apenas uma palavra
Não pode ser explicado senão por outras palavras
Todas as palavras são, portanto, de plástico.
(Gustavo Rückert, Material)

Aristóteles, no início de sua Poética, postulou categoricamente que “poesia é imitação”; em linha tangencial, na contemporaneidade, Pierre Bourdieu apontou para a reprodução social como foco dominante do viés de condução da formação e produção artístico-cultural de nosso tempo. Rückert, por sua vez, não percorre estes caminhos: seus versos e reversos, dotados de criatividade do cotidiano, compõem uma bela estesia literária e, assim, uma boa pedida de leitura. Se há um significado para a palavra fruição, sem dúvida alguma Poemas de Plástico contribui para o aporte de formação de sua acepção.  

domingo, 7 de dezembro de 2014

Falco: A Linha Tênue entre Clássico e Popular


Olá. É muito recorrente na crítica contemporânea a postulação de uma possível ruptura entre tradição e popular. Um dos autores que aborda esta questão é o Antropólogo Néstor Garcia Canclini, em seu livro “Culturas Híbridas”. Essa quebra tem suas raízes nas vanguardas do início do Século XX, e, devido à complexidade de pluralidades existentes na cultura contemporânea, por vezes esta diferença se clarifica e, em muitos momentos, se enturvece.

A Linha Tênue: Falco, pseudônimo para Johann (Hans) Hölzel.
Falco é um destes exemplos em que pode-se perceber esta tensão. Músico de formação clássica, nasceu em Viena, na Áustria, berço dos grandes compositores. Contrariando as premissas de sua trajetória acadêmico-musical, acaba por voltar-se às vertentes sonoras contemporâneas à sua época, começando inicialmente em uma banda de hard rock e passando, posteriormente, a um dos precursores do estilo “rap” como conhecemos hoje.
 

Falco, caracterizado como Amadeus (Mozart).

Pseudônimo de Johann (Hans) Hölzel, Falco se interessou pelos sons e ritmos da música rap, tornando-se um dos primeiros na Europa a incorporar tal estilo nas músicas pop e rock. Ele é mais conhecido internacionalmente pela canção "Rock Me Amadeus", de seu álbum “Falco 3” (1985), que se tornou um hit mundial em 1986, atingindo primeiro lugar nas paradas de sucesso em vários países.


Tensão pós-modernas: De um lado, o clássico; de outro, os movimentos musicais contemporâneos. Cena do Clipe "Rock Me Amadeus" (1985).
“Rock Me Amadeus” completará, no ano de 2015, 30 anos de seu lançamento. Inspirada na vida do compositor clássico Wolfgang Amadeus Mozart, gênio da música que viveu no século XVIII, bem como no filme “Amadeus”, produzido em 1984, procura retratar, através de seu arranjo e letra, um aproximamento da condição a qual o compositor em sua época era colocado com a condição em que diversas vertentes da música contemporânea são postas. Em suma, a canção retrata que, da mesma forma que Mozart era tratado, mesmo sendo um gênio incompreendido – genialidade colocada em voga após sua morte e até os dias atuais –, muitos grandes e bons compositores de hoje são marginalizados por produzirem um repertório que foge aos padrões da dita Música Popular – como o Rap, o Hip Hop, o Funk, o Rock e o Heavy Metal.


Cena do Clipe "Rock Me Amadeus" (1985).
Pelo aspecto cultural, “Rock Me Amadeus” quebra com os padrões de produção cultural até então realizados. Através de um limes não rigorosamente demarcado, canção e videoclipe mesclam o clássico e o popular, o antigo e o moderno, procurando de alguma forma deixar elucidado ao expectador e apreciador que, tanto ontem como hoje, as mesmas tensões entre clássico e popular se chocam de maneira constante – e, talvez,  latente.

A seguir, há o vídeoclipe da canção Rock Me Amadeus, em sua versão original, remasterizada. Perceba a forma como é conduzido, de início a fim, a fotografia do clipe. Perceba, também, as inserções de outros elementos do âmbito da cultura, que estabelecem um diálogo contraditório e uma crítica reflexiva bem estruturada da condição cultural em que nos encontramos – tanto hoje, como ontem, como há trinta anos atrás.
 

Aos quarenta anos, em 1998, em um trágico acidente automobilístico na República Dominicana, Falco nos deixa. De novo surge a limes: de um lado, sua vontade de retomar a carreira musical; de outro lado, o seu legado à contemporaneidade. Lastimadamente, a fronteira desta vez, está – e assim ficará – bem estabelecida.

125 Anos do Último Baile da Monarquia Brasileira


Olá. Em nove de novembro do corrente ano, fez-se 1 e ¼ de século do famoso Baile da Ilha Fiscal, que ficou conhecido como o último grande evento realizado pela monarquia brasileira. Em virtude disto, é bom relembrar fatos ocorridos em um acontecimento que influenciou  - direta ou indiretamente – na instauração do regime republicano no Brasil e a consequente queda do império.

Ilha Fiscal - mirada continental. Início do Século XX.
Dia 9 de novembro de 1889, sábado: Em homenagem aos oficiais do navio chileno "Almirante Cochrane", foi realizado um baile na ilha Fiscal, no centro histórico do Rio de Janeiro, então capital do Império. Foi a última grande festa da monarquia antes da Proclamação da República Brasileira, em 15 de novembro, uma sexta-feira, seis dias após o baile. Inicialmente marcado para o dia 19 de outubro, foi adiado por ocasião da morte do Rei Luís I de Portugal (1861-1889), sobrinho de Pedro II do Brasil. O evento, que reuniu toda a sociedade do Império, formalmente homenageava a oficialidade dos navios chilenos ancorados na baía havia duas semanas. Porém, na realidade,  comemorava as bodas de prata da Princesa Isabel e do Conde d´Eu. Além disso, a intenção do Visconde de Ouro Preto, Presidente do Conselho de Ministros, era a de tornar inesquecível este baile, no intuito de reforçar a posição do Império contra as conspirações republicanas. O dinheiro gasto por ele no baile, 250 contos de réis, foi retirado do Ministério da Viação e Obras Públicas, e estaria destinado a socorrer flagelados da seca no Ceará. Além disso, este valor correspondia a quase 10% do orçamento previsto da Província do Rio de Janeiro para o ano seguinte.

"O Monarca escorregou, a monarquia não!" D. Pedro II, em retrato de 1890.
Estima-se que cerca de três a cinco mil pessoas participaram do baile, marcado pelo excesso e pela extravagância: a ilha foi enfeitada com balões venezianos, lanternas chinesas, vasos franceses e flores brasileiras. O movimento dos convidados era constante. Eles desciam das barcas a vapor e eram recepcionados por moças fantasiadas de fadas e sereias. O tilintar das taças de bebida se misturava aos risos e à música. Nunca se havia visto no Brasil tanto luxo. Na parte de trás do palacete foram montadas duas mesas, em formato de ferradura, onde foi servido um jantar para quinhentos convidados, sendo 250 em cada uma delas. Entre as iguarias, servidas em pratos ornamentados com flores e frutas exóticas, foram consumidos 800 kg de camarão, 300 frangos, 500 perus, 64 faisões, 1.200 latas de aspargos, 20.000 sanduíches, 14.000 sorvetes, 2.900 pratos de doces, 10.000 litros de cerveja, 304 caixas de vinhos, champagne e bebidas diversas. Uma banda, instalada a bordo do "Almirante Cochrane", o navio homenageado, tocou valsas e polcas madrugada adentro.

Menu do Baile.

"Dançou-se muito no baile da Ilha Fiscal, mas o que os convidados não imaginavam, nem o imperador D. Pedro II, é que se dançava sobre um vulcão. À mesma hora em que se acendiam as luzes do palacete para receber os milhares de convidados engalanados, os republicanos reuniam-se no Clube Militar, presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para maquinar a queda do Império. "Mais do que nunca, preciso sejam-me dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e sua dignidade", discursou Constant na ocasião, tendo como alvo justamente o Visconde de Ouro Preto. Longe dali, ao lado da família imperial, o visconde desmanchava-se em sorrisos ao comandar seu suntuoso festim. A família imperial chegou ao cais pouco antes das 10 horas. D. Pedro II, fardado de almirante, a imperatriz Teresa Cristina e o príncipe D. Pedro Augusto embarcaram primeiro. Quinze minutos depois foi a vez da princesa Isabel e do conde D’Eu. Uma vez no palácio, foram conduzidos a um salão em separado, onde já se achavam reunidos membros do corpo diplomático estrangeiro oficiais e alguns eleitos da sociedade carioca. O guarda-roupa da imperatriz não chegou a causar impressão especial entre os convidados - um vestido de renda de chantilly preta, guarnecido de vidrilhos. A toalete da princesa Isabel, no entanto, causou exclamações de admiração pelo luxo e pela beleza. Ela portava uma roupa de moiré preta listrada, tendo na frente um corpinho alto bordado a ouro. Nos cabelos, carregava um diadema de brilhantes”.

Ingresso de acesso ao Baile.

Um fato irônico, até hoje não confirmado, ocorreu logo após a chegada da família real, às 10 horas da noite: conta-se que D. Pedro II, ao entrar no salão do baile, desequilibrou-se e levou um tombo. Foi amparado por dois jornalistas. Ao recompor-se, exclamou: O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu! Apesar do sucesso do baile, o imperador pouco se divertiu. Ficou sentado o tempo todo e foi embora à 1h da manhã, sem jantar.

Uma foto do último baile: Decoração da área interna do prédio da Ilha Fiscal, horas antes de sua realização.
Outro acontecimento curioso ocorreu no término da festa. Às 5 horas da manhã, após a saída dos convidados, os trabalhos de limpeza revelaram alguns artigos inusitados espalhados pelo chão: além de copos quebrados e garrafas espalhadas, foram recolhidas condecorações perdidas e até peças de roupas íntimas femininas. O fato pode, entretanto, ser fictício, uma vez que foi relatado na coluna humorística Foguetes, do periódico carioca "O Paiz", no dia 12 de novembro.


Ilha Fiscal no dia do último baile do Império (1889, óleo sobre tela, Francisco Joaquim Gomes Ribeiro.)
Em 1905, Aurélio de Figueiredo e Melo, em homenagem à realização do Baile, pintou o quadro intitulado “A Ilusão do Terceiro Reinado”, do qual pode-se ler a respeito em postagem anterior feita neste blog, clicando aqui.


A Ilha Fiscal, nos dias atuais.
 
Espero que tenham gostado. Até a próxima!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

OS SENTIMENTOS E SEUS DESLIMITES*

Nádia Costa Botelho das Neves**
 
Capa do Livro "Os Limites do Impossível". Origem: Google.
No romance “Os limites do impossível – contos gardelianos”, do autor Aldyr Garcia Schlee, há a representação das “mulheres que amam” o personagem Carlos Escayola. São elas Juana, Rosaura, Manuela, Felícia, Berta e La Madorell, mulheres que foram capazes de se desviarem moral e socialmente, demonstrando comportamentos contrários aos padrões da sociedade da época, tudo para terem a atenção e o amor do protagonista. Essas mulheres, ao transgredirem o comportamento social, esperado pela cultura patriarcal, demonstram que valorizam mais seus sentimentos do que as convenções. O amor a Carlos Escayola é confundido algumas vezes com prazer, luxúria ou simplesmente a sublimidade contida neste sentimento.
As personagens femininas não se restringem ao ambiente interno da casa, elas demonstram seus sentimentos como desejo, amor, ira, etc; também no espaço público, território masculino, onde a política, a luta e os vícios são permitidos. Tal comportamento indica a atualidade das narrativas, pois apesar da trama ocorrer na passagem do século XIX para o XX, as dores e os amores das mulheres é que estão no centro do romance. Essa atualidade fica evidente porque ao denunciar o modo como àquela sociedade lidava com as mulheres, entendemos um olhar contemporâneo, momento no qual a sociedade está mais aberta para discutir os direitos femininos.
Assim, teremos um enredo que contempla os desejos, os amores, as amizades; enfim, as emoções femininas que na época eram abafadas pela comunidade. É o caso de Juana, a mulher mais velha, com 36 anos de idade, apresenta-se tendo duas filhas em idade casadoira. Ao conhecer Carlos, ainda moço e recém-chegado à Vila de San Fructuoso, com aproximadamente 21 anos de idade, ela percebe logo seu caráter. Era casada com Tano e, por isso, se sujeitou a oferecer sua própria filha em matrimônio para manter o relacionamento com o moço garboso e viril. Apesar de tal atitude, o conquistador a relega ao segundo plano. Mesmo casando-se com Clara, a primogênita de Juana e Tano, Carlos mantinha seu interesse em outras conquistas.
O relacionamento incestuoso com Juana, sua sogra, resultou no nascimento de Maria Lélia ou La Niña. Entretanto, para a sociedade em geral, bem como para a família, a menina era fruto da união legítima de Juana e Tano, tanto que o genro, Carlos Escayola, tornara-se padrinho da menina.
O romance demonstra que Escayola não conseguia sequer ser fiel à sua esposa e à sua amante, pois não permanecia muito tempo com a mesma mulher. Com a morte de Clara, Juana não consegue mantê-lo por perto. Ele se afasta da sogra e segue viagem com uma nova parceira, Rosaura, moça que retirou de um circo equestre.
As lembranças vêm a Juana como num flashback. O desejo latente por um homem que não era seu marido a levou a cometer desatinos em nome de um amor passageiro, que deixou apenas marcas profundas de destruição na vida de seus familiares. Ela usou todos os ardis possíveis para conquistá-lo; por esta paixão desvairada, Juana obriga a própria filha Clara a casar com Carlos para que ele pudesse estar ao seu lado, para não perdê-lo. No entanto, não consegue controlar suas emoções e chega a odiar sua filha por possuir aquele a quem ama. Juana sente-se perdida porque Carlos não vive com ela e para ela, e ninguém pode saber o que a criança representa em suas vidas. O seu desvio de conduta pesa de tal forma sobre ela que acaba enlouquecendo lentamente, cega pela raiva e pela dor de não poder revelar ao mundo o seu verdadeiro amor. Juana acaba sem Carlos e sem a filha, o que reforça mais a sua instabilidade, tornando-a lentamente cada vez mais louca.
Se Juana perde sua lucidez, Rosaura perde sua alegria e liberdade. A jovem sorridente trabalhava no circo equestre, que tinha chegado à cidade de San Fructuoso. Era uma moça de gestos largos, vestida com roupas insinuantes que mais mostravam do que escondiam o seu corpo. Seu trabalho, de pouco valor, pois se limitava a segurar a corda presa ao buçal do cavalo, lhe permitia conhecer vários lugares e não fixar raízes. Essa liberdade acaba quando resolve viver com Carlos, que havia recentemente ficado viúvo e com duas filhas pequenas, as quais deixou aos cuidados da cunhada, Blanca. O casal viajou e Rosaura o acompanhou como se fosse sua mulher e no percurso foi feliz, inclusive recebendo presentes valiosos, como uma petaca de veludo bordada em ouro, que no princípio estava vazia, mas que a cada dia da viagem Carlos lhe presenteava com uma pedrinha de ouro, lembrança dos dias inesquecíveis.
O idílio que foi a longa viagem ao extremo da fronteira ainda perdura em Rosaura, enquanto ela se instala na casa luxuosa de veraneio em San Gregório. Nessa casa, ela ficaria a espera de Carlos, passando-se por caseira. Isso já pode ser visto como uma perda, na medida em que não era reconhecida como esposa; porém, a perda é maior porque ela passa a ser insignificante para Escayola.  A carta que recebe de Carlos deixa evidente sua posição de desnecessária, pois na missiva descobre que ele havia casado com Blanca, irmã de sua finada esposa.
Em detrimento da manutenção da unidade familiar, Carlos trocou o amor de Rosaura pela sua cunhada. Apesar disso, o sentimento de Rosaura ainda sobrevive, mesmo quando descobre tardiamente que ele havia seduzido La Niña, sua “afilhada”. As atitudes insensíveis e cruéis de Carlos não diminuem a afeição que ela sente e, inclusive, aceita o encargo de cuidar de Maria Lélia.
A moça que outrora era sorridente e que por um curto espaço de tempo foi feliz ao lado de Carlos, por amor foi capaz de abandonar seus sonhos, sua profissão, sua liberdade; submeter-se a caseira e ama; esconder seus sentimentos, pois nem seus amigos mais próximos sabiam de seu relacionamento com Escayola; enfim, tornar-se como uma viúva resignada a esperar o milagre do retorno de seu homem – que acontecia quando ele queria e podia – o que era raro.
As mulheres que amam Carlos são diferentes em vários aspectos: idade, situação financeira, cor, posição social e religião. Juana e Rosaura eram mulheres fortes que dominavam suas vidas, mas que não conseguiram dominar seus sentimentos. Manuela e Felícia eram inferiores socialmente, pois eram empregadas e ambas também sofreram por suas escolhas. 
Manuela tinha quinze anos de idade quando sua mãe e seu pai foram trabalhar na estância Santa Blanca. Apesar de sua mãe a vigiar e a prevenir para que não se aproximasse do dono da estância, pois era homem que se metia com as mulheres por bem ou por mal, isso a incitou a aguardar com sobressalto pela chegada de Carlos. Ela vivia imaginando como seria aquele homem. Manuela se envergonha quando é notada por ele, pois o achou bonito. Ele a tratava bem, sabia o nome de seus pais, era alegre e contagiava a todos. Manuela entregou-se sem medo, pois via nele o homem que despertava nela os segredos do amor e do desejo e sentia-se amada e valorizada pelo modo que era tratada.
 Sua entrega a Carlos foi por vontade própria, seu amor era desmedido mesmo sabendo das atitudes pouco convencionais do seu amante. Apesar de castigada pelos pais, mantinha o sentimento. Somente Carlos a possuía, para outros conservava sua postura virginal, intocável. Manuela era diferente, mesmo com corpo de mulher, não lhe davam a idade precisa, ela guardava a pureza de criança, a pureza de donzela; não encorajava ninguém, não levantava os olhos, ignorava a todos.
Distinta de Juana e Rosaura, Manuela nunca se iludiu, não se sentia desonrada, não ignorava que Carlos era casado e tinha três filhos com Blanca, além das duas filhas do primeiro casamento, e os outros tantos fora. Quando ela perde seus pais, o coronel leva-a para a casa da fazenda. Fica na estância comandando, como se fosse dona, apesar de jamais ter se interessado em sê-lo, afinal, ela queria apenas ele.
Manuela não tinha nem a rigidez moral de Juana e nem o sonho de liberdade de Rosaura, por isso cuida e trata tanto de La Niña como do seu filho com Carlos que nascera. Não pede explicação, somente acata o pedido do coronel feito por carta. Manuela trata o bebê como se fosse seu filho pelos três primeiros anos e, quando ambos já estavam apegados, a criança é levada por Berta, uma corista de cabaré, para Buenos Aires.
Manuela representa aquela que não tinha nada a perder, tanto por sua situação social como pela sua forma de pensar, mas mesmo assim, Carlos consegue causar nela o sentido da perda. Manuela era estéril e a afeição com a criança supria seu anseio pela maternidade. Ela nunca pediu a Carlos mais do que ele pudesse lhe oferecer, jamais fez cobranças ou perguntas, aceitou como suas as decisões e pensamentos dele, como se ambos de fato fossem um só ser, conscientes das vontades e desejos um do outro. Ela manteve-se íntegra em suas convicções, em seus desejos. Tinha claro que não poderia possuir o amor de Carlos, mas poderia ter sido mãe, mesmo de um filho incestuoso.
Manuela nada precisou fazer para despertar a atenção do patrão. Ao contrário, seus pais diminuíram sua idade como forma de proteção, para passar despercebida aos olhos de Carlos. Porém seu corpo adolescente mostra a verdade. Felícia, pelo contrário, possui o desejo pelo “patrãozinho” e usa dos rituais primitivos de sua religião para que ele a perceba.
Felícia é mucama negra, magra, ágil e sempre vestida de branco, da saia até o pano enrolado na cabeça. Ela é jovem, faceira, perfumada e obediente. É a primeira a levantar todas as manhãs para esperar o leiteiro e o aguateiro. Ela sabe de tudo que se passa na casa e tenta contar a sua mãe, que não acredita nas suas histórias.  É através do amplo passadiço da casa que Felícia percebe as relações de Carlos com as várias mulheres da casa:
“- Sabes que Clarita (sim, nha Clarita, a patroninha Clara, doña Clara), recém antes de casar-se com o patrãozinho (sim, siô Carlos, o patrão don Carlos), a patroa doña Clara, sendo ainda moça solteira e sem ao menos imaginar que ia casar-se com o patrão don Carlos, ela  levantava bem cedo, de  manhã(eu via), ela corria todas as manhãs até a porta (eu via), ela levantava bem cedo e corria todas manhãs a esperar (eu via), corria a esperar...”
“- Sabes que Blanca (sim, nhá Blanca, a patroninha sinhá Blanca), antes de casarem doña Clara com o patrãozinho (sim, siô Carlos, o patrão Don Carlos), a patroninha doña Blanca, quando ainda nem se sabia que iam casar doña Clara com o patrão Don Carlos, quando doña Clara também era solteira, moça solteira, moça donzela como ela e como eu... admirava-o.”
“- Pois sabes que a patrona velha (sim, siá Juana, a patrona doña Juana do patrão velho), desde antes de se casar o patrãozinho (sim, siô Carlos, o patrão Don Carlos) com a patroninha Clarita (sim, a patroa doña Clara), quando nosso serviço ainda era todo só na casa dele; e, depois, até depois do casamento dele com doña Clarita, agora, ele e ela, doña Juana (ele, Don Carlos; e ela, doña Juana) os dois...” (SCHLEE, 2009, p. 33-34).
A passagem acima demonstra que a mucama foi testemunha dos encontros clandestinos de “sinhá” Juana com Carlos e da paixão de Clara pelo tambeiro. Ela é expectadora silenciosa do que ocorre dentro das paredes da casa grande da família, dos dois lares geminados que se transformam em um só e onde não há empecilhos para conquistas proibidas e desfechos. Para Felícia, é um tormento e uma agonia não ter credibilidade, pois mesmo sua mãe não acredita em suas histórias imprudentes e indecentes.
Ela vive entre a cólera de não ter credibilidade e a indignação de não ser percebida. Felícia representa a mulher insignificante, sem direito à liberdade e aos sonhos, sem direito a constituir família; ela é a propriedade de um homem branco, rico, respeitado pela sociedade. O seu jugo não será mais leve ao tornar-se amante do patrão, pois pior que as outras, ela não terá a mínima atenção. O sentimento de menosprezo a leva a se utilizar das práticas de magia (“vodu”) para que ele lhe dê atenção.
Se Manuela e Felícia, ambas subalternas, se utilizam de estratégias distintas para angariar a atenção do patrão, uma através do corpo e outra através da magia, Berta, também subalterna, se diferencia delas por conquistá-lo pelo atrevimento e por sua falta de pudor.
De origem francesa, Berta era bonita, insinuante, atrevida e tinha em torno de dezoito anos. Ela revelava altivez e certa arrogância, o que para as pessoas sugeria inoportuna. Ela é descrita com movimentos invulgares e inusitados, com gestos excitantes e perturbadores, com voz misteriosa e enigmática, com olhar coruscante e insidioso.
Berta passará das funções domésticas a protegida de Victor d’Olivier, engenheiro formado que comandava a poderosa Compagnie Française d’Or de L’Uruguai, e foi levada para a zona de mineração, passando a viver com ele, que mandava despoticamente. Berta é um presente de Victor a Carlos, que a leva para sua própria casa como lavadeira e engomadeira. Por sua competência nos afazeres domésticos, Berta desperta o ciúme de Blanca, e, para evitar brigas, Carlos leva-a para o cabaré “La Rosada”. Berta torna-se a sensação do estabelecimento e ele, descontente com sua popularidade, tira-a de lá e a instala em uma casa perto de onde reside.
Longe de seu convívio de costume, Berta sofre pela angustiante espera, por mais de um ano, sem ter com que se ocupar. A revolta por essa situação a leva a trair Carlos, que descobre e faz com que ela retorne ao cabaré. Lá, colocada entre as coristas, é a que mais se sobressai.
 O desgosto de Berta, por voltar à antiga situação, resulta-lhe a lucidez necessária para entender que está completamente só, abandonada, triste, sem ter ninguém que de fato lhe aceite e a admire, ou seja, sente-se desamparada. A jovem que antes era alegre, cheia de energia, torna-se cansada, impotente e sujeita a conviver com homens estúpidos, bazofeiros, velhos e impotentes. Perde a proteção de Carlos quando é mandada embora, mas o coronel lhe entrega a Jorge, nome que deveria dar ao filho incestuoso, que ele teve com a “afilhada”.
Berta carrega consigo o valor de três mil pesos e a garantia de ajuda permanente, caso ela não fale para ninguém sobre a criança. O menino, que recebe o nome de Carlos, era a única segurança que ela possuía. A mulher que antes era autoconfiante agora tem que construir sua vida sem a ajuda de ninguém. É essa pessoa que supostamente foi mãe de Carlos Gardel.
Carlos Escayola usa as mulheres e consegue tirar delas o que cada uma mais deseja. Assim como Juana, Rosaura, Manuela e Felícia, Berta perde na relação com o coronel. Em seu caso é a segurança, a esperança de poder envelhecer sob a proteção de alguém, o que não ocorre, pois além de não conseguir um abrigo teve de cuidar do filho de quem o abandonou.
Quem encontra a proteção de Carlos é Pilar, que por seu turno desejava não a segurança, mas a fama. Ela foi tratada como esposa, mãe, companheira e amiga; entretanto, o que mais desejava não conseguiu. Pilar Madorell almejava ser uma grande estrela nos palcos de teatro, mas foi apenas a substituta eventual, tanto nos palcos como na vida de Carlos. Ela preencheu mais uma lacuna na vasta coleção de mulheres. Para Pilar, esse homem representa o que jamais tivera, por isso sente-se atraída e não se importa com o que dele falem.
Carlos a levava à Capital nas casas de chás, confeitarias e salões de café-concerto. Assim como Berta, que recebeu o que sonhava e depois perdeu, Pilar encontra nele o parceiro que tinha forma e jeito de fazê-la sentir-se a mulher que sempre quisera ser. As longas cartas que escrevia para justificar sua ausência indicam o cuidado e carinho que Carlos tinha por ela. Essa atenção durou pouco tempo, pois ela percebia o interesse dele pelas outras mulheres. O sonho de glamour de Pilar termina quando o gentil general Santo sofre um atentado e escapa por pouco da morte. Apesar do prestígio de Escayola desaparecer subitamente e Pilar ampará-lo do falecimento de La Niña, ela não consegue conquistá-lo e continua sendo apenas suplente. Ocorre que a perda da esposa desestabilizou o coronel, que sempre comandou a situação.
Pilar vive o sonho de Manuela porque é mãe dos filhos menores de Carlos, o sonho de Juana e Felícia, pois é companheira de Escayola. Convivem juntos até 1911, porém não consegue realizar seu sonho de ser atriz e de ser reconhecida. Pilar, assim como Juana, Rosaura, Manuela, Felícia e Berta, sacrifica algo de sua vida em detrimento do amor de Carlos; entretanto, nenhuma conquistou seus desejos e de um modo ou outro só lhes resultou a solidão, a desilusão.

Elas transgrediram a moral, perderam a liberdade e seus sonhos, deixaram-se levar pela paixão, pela ilusão da felicidade junto a um homem que nunca se comprometeu de fato com nenhuma delas, pois era inconstante. Só colheram desalentos, destruíram seus casamentos, perderam o brilho dos palcos, o sucesso, bem como a juventude e a beleza, tudo a espera de uma mudança que significasse a verdadeira felicidade, algo que nunca aconteceu.

Referência Bibliográfica
SCHLEE, Aldyr Garcia. Os limites do impossível – Contos gardelianos. Porto Alegre: ARdoTempo, 2009.

* Capítulo do Trabalho de Conclusão de Curso "Os Impossíveis Limites dos Sentimentos em 'Os Limites do Impossível'", apresentado ao Curso de Letras da Unipampa em 2013, gentilmente cedido pela autora para publicação no Blog.
** Graduada em Letras - Português/Espanhol e Respectivas Literaturas pela Unipampa - Jaguarão/RS.